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sábado, 6 de abril de 2013

A coleção do maior louco de todos ....

Caros,

Terça passada eu visitei uma coleção de automóveis que me deixou de queixo caído. Não pelos carros em si, que definitivamente não fazem o meu gosto, mas pela inacreditável história por trás dela, pela fartura e riqueza do acervo e pela beleza do Museu que a guarda ...

Estou falando do Museu Nacional do Automóvel de Mulhouse, a (nem tão) conhecida Schumpf Collection ...

Estava visitando minha irmã que reside na Alemanha há mais de 13 anos e, despretenciosamente fui visitar esse Museu, na vizinha Mulhouse, França. Já tinha ouvido a história inacreditável por trás desta coleção, e fui ver de perto ...


Foi resumir muito a história. Existe muita controvérsia sobre o assunto até hoje, principalmente no que diz respeito às praticas dos irmãos Schlumpf e a uma eventual injustiça que pode ter sido cometida contra eles ... Se nem os franceses chegaram a um consenso, não vou ser eu que vou ousar palpitar sobre o assunto ... Então vamos apenas à história !

Os irmãos Hans e Fritz Schlumpf nasceram na Itália no início dos anos 1900 ... Filhos de pai suiço e mãe da Alsácia (região que hoje é França, mas já trocou algumas vezes de mãos entre franceses e alemães), tinham nacionalidade suiça ...

O mais velho Hans (que é meio coadjuvante nesta história) fez carreira em bancos. O mais jovem (e o verdadeiro porra louca da história) se especializou inicialmente no comércio e posteriormente na fabricação de lã ...

Em um dado momento os irmãos se juntaram, uniram seus talentos e começaram a prosperar ... muito !

Hans e Fritz Schlumpf

Compraram uma moinho de lã (existe palavra melhor para isso em Português ??? Lanifício ??? Vou chamar de moinho de lã mesmo ...) na cidade de Mulhouse ... E depois mais um em outra cidade da Alsácia ...

Quando estourou a segunda guerra mundial, os Schlumpf se deram muito bem ... Hastearam bandeiras suiças na fábrica de Mulhouse para mostrar a todos a sua neutralidade e venderam muita, muita lã aos exércitos combatentes ... Como eram um dos poucos que continuavam produzindo, vendiam seus produtos pelos preços que queriam, com margens astronômicas ... Passada a guerra, se a Europa estava destruída, os Schlumpf estavam trilhonários !!!

Algum tempo depois Fritz começou a comprar carros ... Ele tinha um Bugatti para uso pessoal, e começou a comprar os carros que haviam sido produzidos há 100 km dali, na própria Alsácia. 

Nos anos 60 a doença atingiu níveis estratosféricos. Fritz comprava todos os Bugattis que conseguia. Às vezes comprava coleções inteiras só porque tinha 1 ou 2 Bugattis no meio. Chegou a comprar uma coleção de 30 Bugattis nos EUA de uma vez só ... Ele dizia: "Todos estes carros foram produzidos na Alsácia e eu vou trazer todos de volta para cá !" ... Adoro esses comportamentos doentios ... :)

Obvio que ele não conseguiu comprar todos, mas conseguiu juntar a inacreditável soma de 150 Bugattis ! Inclusive o carro de uso pessoal de Ettore Bugatti e tudo que sobrou da fábrica dele quando fechou ...

No meio destas compras vieram Ferraris, Maserattis, Hispano-Suiza e mais uma infinidade de coisas ... No total ele passou de 500 carros.

Até que ele decidou fechar o moinho de Mulhose para pode abrigar toda sua coleção de carros.

Foto do moinho de lã ainda em funcionamento.


Os funcionários foram demitidos e, em segredo, os carros começaram a serem levados para lá dentro de vagões de trem que eram desviados para dentro da velha fábrica.

O que os Schlumpf começaram a fazer lá era digno do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate. Os Willi Wonka dos Bugatti mandaram fundir 900 postes de ferros, réplica dos da ponte Alexandre III em Paris para substituir cada pilar do moinho, deixando o lugar lindo e fazendo a iluminação ...

Muitos carros foram restaurados na oficina do Museu e, em silêncio, trabalharam mais de uma década para abrir o Museu ao público. Até os baldes de Champagne já estavam comprados para a inauguração.

Até que ...

Até que, em 1976 os Schlumpf quebram ... 2.000 funcionários foram demitidos. Até que o sindicato dos trabalhadores do outro moinho, em 1977, tomam o moinho de Mulhose ... E quando abrem as portas ... dão de cara com mais de 500 super carros europeus em impecáveis condições, num ambiente maravilhoso.

Europeu já é meio comunista mesmo, imagine um sindicalista .... Aquilo revoltou os funcionários ... Há boatos que chegaram a por fogo em um Bugatti como forma de pressão ...

E aí o governo francês, a prefeitura de Mulhouse, Automóvel Clube da França e outros entram em ação, protegendo a coleção e estatizando o Museu.

Os irmãos Schumpf são escoltados até a fronteira da Suiça e nunca mais entrariam na França, tampouco viriam seus carros e seu sonho do Museu aberto ...

Em 1981 o Museu abre ao público com o nome de Museu Nacional ... Apenas em 1988 se dão contam da injustiça e renomeiam o Museu como - Museu Nacional - Coleção Schlumpf.

O interesse do público foi imenso, pela curiosidade acerca de tal história. E o Museu até hoje permanece em constante atualização, lindo e bem administrado.

A minha visita foi rápida, devo ter ficado umas 2 horas no museu apenas. Estava com meu filho, minha mulher e minha mãe. Me prendi mais ao prédio, a infraestrutura, a disposição dos carros do que aos carros em si ...

Seguem algumas fotos ....

Entrada do Museu ...

O prédio original do moinho à esquerda e uma construção moderna à direita ...

Eu .. Puta frio ....

Disposição dos carros, com os citados postes e paineis que remetem à epoca de cada carro

Carro muito antigo com pintura de fábrica ainda ... Como eu sempre digo, nem tudo se restaura !

Um de infinitos Bugattis ...

Outro ...

Uma coisa interessante. Cada visitante recebe um aparelhinho, tipo um celular ... Em cada carro tem um número .... Você aperta  número e o aparelinho conta detalhadamente a história daquele carro. Este em questão foi uma pick up que a Bugatti construiu para um projeto de se cruzar o norte da Africa de carro ....

Freak !!! O dono, um artista, levava suas telas no banco de trás ....


Mais Bugattis ....

Essa minha mãe mandou tirar .. Quando meu pai começou a namorar com ela, ele tinha um Dauphine amarelo ....

Excursão de escola no Museu. As crianças não tinham que ficar passivamente olhando os carros, mas completando um "teste" com informações que só eram obtidas nos carros. Muito interessante...

Hispano-Suiza 

A administração do Museu tenta mantê-lo atualizado. A PSA, por exemplo, tem a fábrica a poucos km do Museu, e cedeu o Peugeot número 10.000.000 produzido para o Museu

A Bugatti, tão homenageada no Museu, cedeu um Veyron, colocado como um dos destaques ...

Carros de corrida eram outra paixão dos Schlumpf ...

Dispostos num grid ....

Grid dos veteranos ....


Simca Gordini ....  Certamente não ganharia nenhum concurso de design ....

Mais carros de corrida ....

Os Formula 1 ...

Destaque para os postes ! 

Um dos poucos carros que eu achei realmente bonito no Museu ....

Agradecimentos ... Muita gente envolvida na administração do Museu !


E uma curiosidade ! Amanhã, 7/abril/13, vão apresentar lá no Museu o novo Willis Interlagos, ops, quer dizer, Renault Alpine, que está sendo ressuscitado por lá !


Para fechar o post, uma observação. Hesitei em colocar este post aqui por não ter absolutamente nada a ver com Dodge e afins ... Porém mostra como é possível se administrar um museu de automóvel com seriedade ...

Exatamente isso deveria ter sido feito no Museu da Ulbra ... O cara tá devendo ??? Toma o Museu dele e mantém o patrimonio cultural formado !! Mas não ... Brasileiro burro quer desfazer tudo, vende tudo de qualquer jeito e pronto .... Temos muito a aprender com a Europa ... Se esse é o sucesso do Brasil, eu prefiro a crise européia !!! Apesar de não gostar muito dos carros de lá ...

Abraços,

Badolato




18 comentários:

  1. enquanto estava lendo sobre o rumo q esse museu tomou lembrei do Museu da Ulbra, até q vc citou sobre ele! nossos governantes deveriam aprender com os franceses...

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    1. Se eles parassem de roubar já estava bom ...

      Abraços !!

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  2. Um exemplo do que aconteceria se essa história se passasse no Brasil é o que aconteceu com a coleção do Eduardo Roberto Lee.

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  3. Badolato,

    visitei a coleção Schlumpf anos atrás, quando estive em Basel a trabalho. Também fiquei pouco, pois tive um coquetel no mesmo dia.

    Tirei muitas fotos, especialmente das Bugattis, já que elas são a grande atração da coleção. É muito impressionante, muito embora eu teria poucos dos carros expostos (mesmo que tivesse grana para comprar, o que não é o caso).

    Eu me diverti muito mais na The Auto Collections, em Las Vegas, no ano passado. Lá encontrei muitos carros mais do meu gosto, como Road Runner 440+6, Super Bee 440 Six Pack, Javelin 401, Corvette 427, Impala 409, Chevelle SS 396, Olds 442 Pace Car, além de carros usados um filmes, como o Eleanor que foi dirigido pelo Nicholas Cage.

    O melhor é que muitos dos carros estão à venda. Caso você não conheça, vale a pena a visita.

    Abração.

    Reinaldo
    http://reiv8.blogspot.com

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    1. Reinaldo,

      Nunca fui para Las Vegas ...

      Acho que o único carro do Museu que eu gostaria de ter para mim é uma Testarossa 1992 prata, aparentemente zero kilometro ... Todo o resto eu prefiro deixar no Museu !

      Abração,

      Badolato

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  4. O Museu da Ulbra foi a maior tentativa de se ter um acervo multimarca e atemporal já feito no Brasil, e arrisco dizer, na América Latina. Eu acompanhei o auge e o declínio desse gigante patrimônio, e foi muito dolorido ver tudo aquilo se desfazendo por conta de vaidades pessoais...No final fui "presenteado" com uma bela peça que acabou indo para lá, na intenção de se preservar a história, e que graças à ação do destino, voltou à nossa família, o querido Dart Sumatra...
    Uma lição para o futuro, mostrar que sonhar e juntar carros para a posteridade é algo fantástico, mas que basta um governo acéfalo e que não dá a menor importância à cultura entrar em cena, aí tudo estará perdido, irremediavelmente...
    Tomara que a coleção do Nasser não tenha um fim parecido...

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    1. Verdade Marião. A última notícia que li a respeito do Museu do Nasser era preocupante, dava a entender que as chances de vitória não eram boas.

      Espero que o Nasser encontre uma boa saída, grande cara e grande museu.

      Abraços.

      Reinaldo
      http://reiv8.blogspot.com

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    2. Caros,

      O Nasser vê o blog de vez em quando ... Vamos ver se ele se manisfesta ... N post do Regente ele respondeu ...

      A situação dele é completamente diferente ... Ele está brigando pelo espaço que lhe foi cedido e posteriormente retirado...

      O conteúdo do Museu é todo dele !

      Se ele quiser compra uma chácara e leva tudo para lá ...

      A briga é porque ele pegou o espaço abandonado, fez muitas melhorias, montou um museu de interesse público e agora querem tirar ele de lá ...

      Mas o acervo está 100% a salvo !!!

      Abraços,

      Badolato

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  5. Bom, pelas minhas contas faltam 400 Dodges para igualar o feito, com a única diferença que o que não for Dodge será descartado. Faltam os postes somente, kkkkk!!!!

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    1. Vital,

      Só quando eu for teu sócio ... kkkk

      Abraços

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  6. Vai lá Badola! Falta pouco pra se igualar a este museu!!! Isto serve pra mostrar que sempre vai existir alguém mais louco que a gente.

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    1. Leroi,

      Num brinca com isso não ...

      Só 1 dos 150 Bugattis comprar minha coleção com o sítio junto ... e ainda devo ter que dar um rim e uma córnea de troco ... kkkk

      Não compare formiga com elefante !! kkkkkk

      Abração,

      Badolato

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  7. Gostei muito da matéria, isso mostra o quão definhados "somos" em se tratando de cultura, história e interesses. Obrigado.
    Abraços,
    Otávio Bussmann.

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    1. Exatamente o ponto !!!

      Se fosse o museu do pagode e do bunda-lê-lê acho que até patrocínio da Caixa e da Petrobrás rolava !!! kkkkkkk

      Abraços

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  8. O museu da ULBRA só serviu para devolver alguns carros para seus devidos proprietários.
    A ganância, corrupção e a sensação de levar vantagem em tudo (como já é de costume de muitos Brasileiros) sucumbiu todo o resto.

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  9. Boa noite Badolato!
    Acabei de ler o primeiro dos seus dois livros, é simplesmente fascinante e contagiante a sua paixão!
    Estou disposto a realizar o sonho de criança e comprar o Dodjão que eu sempre quis!
    Já estou em conato com algumas pessoas e gostaria de saber qual o valor honesto de se pagar em um Charger RT até 1976?
    Como deve ser o seu documento para comprovar a legitimidade quanto ao seu modelo?
    Como identificar se determinado carro veio com o cobiçado motor 318PS?
    Até mais ansioso pelo seu retorno!
    Fique com DEUS!
    Irineu Neto irineuverde@gmail.com

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  10. Ótimo artigo Badolato! Dodges são o ápice, mas conhecer um pouco dos antecedentes tbm faz bem hehehe

    Abraços.

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